Existe uma confusão frequente nos debates sobre pensamento complexo: tratá-lo como se fosse uma disciplina científica, com objeto próprio, método experimental e capacidade de produzir hipóteses falsificáveis. Não é. E compreender por que não é pode ser mais esclarecedor do que qualquer definição positiva do tema.
O que faz uma ciência ser ciência
A pergunta parece simples, mas divide filósofos há séculos. Karl Popper estabeleceu o critério que ainda orienta boa parte da filosofia da ciência: uma teoria é científica se, e somente se, for falsificável, isto é, se for possível imaginar um experimento ou observação que a refute.¹ A psicanálise e o marxismo, por exemplo, seriam para Popper exemplos de teorias não falsificáveis, portanto não científicas, por mais que produzissem explicações para praticamente tudo que ocorresse.
Thomas Kuhn discordou. Em A estrutura das revoluções científicas (1962), argumentou que a ciência não avança pela falsificação sistemática de hipóteses, mas por rupturas de paradigma: longos períodos de “ciência normal”, nos quais os cientistas trabalham dentro de um quadro aceito, são interrompidos por revoluções que substituem um paradigma por outro.² O problema, apontado por Imre Lakatos, é que a posição de Kuhn tornava difícil distinguir progresso científico de mera mudança de crença coletiva, o que para Lakatos equivalia a dissolver a racionalidade da ciência.³
Lakatos tentou mediar o conflito propondo os “programas de pesquisa científica”: uma teoria não é refutada por um único experimento contrário, mas avaliada ao longo do tempo pela sua capacidade de antecipar fatos novos. Já Paul Feyerabend foi mais longe na direção oposta: em Contra o método (1975), sustentou que a história real da ciência não segue nenhum único caminho metodológico, e que impor um modelo único de cientificidade sufocaria a inovação.⁴ Seu lema provocador, “anything goes” (vale tudo), não era um elogio ao caos, mas uma crítica ao que chamava de autoritarismo epistêmico: a ideia de que apenas cientistas têm acesso legítimo à verdade.
O que esse debate revela é que a questão “o que é ciência” não tem uma resposta científica, como observou Edgar Morin.⁵ Ela pertence à filosofia. E é exatamente nesse terreno filosófico que o pensamento complexo se instala.
Uma ciência precisa de um objeto de estudo. A física estuda a matéria e a energia. A psicologia estuda o comportamento e os processos mentais. A sociologia estuda as relações sociais. O pensamento complexo não tem objeto. Ele é uma forma de olhar para qualquer objeto, um conjunto de lentes que permite visualizá-lo de maneira mais precisa.
O que é, então, o pensamento complexo?
Trata-se de uma epistemologia, palavra que deriva do grego episteme (conhecimento) e designa o estudo das condições, limites e fundamentos do conhecimento. Morin e Humberto Mariotti propõem quais são essas lentes através das quais toda produção de conhecimento pode ser examinada, independentemente do domínio científico em questão.⁶ Os pilares fundamentais são:
Incerteza. A ciência clássica buscou eliminar a incerteza como se fosse um defeito do método. O pensamento complexo a reconhece como constitutiva da realidade. Os instrumentos de análise objetiva são importantes, mas não são suficientes. A incerteza não decorre da limitação dos instrumentos; ela é inerente a um universo onde não existe, de fato, nenhum sistema verdadeiramente fechado.
Dialógica. Conceitos aparentemente opostos — ordem e desordem, estabilidade e mudança, cooperação e competição — coexistem e se alimentam mutuamente em vez de se excluírem. A lógica clássica do terceiro excluído exige que A não seja não-A. A dialógica aceita que A e não-A podem ser igualmente verdadeiros e necessários. Mais que isso: que se enriquecem mutuamente.
Emergência. Sistemas complexos produzem propriedades que não existem em nenhum de seus componentes isolados. A consciência não está nos neurônios individualmente; ela emerge da organização entre eles. O mercado não está em nenhum comprador ou vendedor; emerge das interações entre todos.
Princípio hologramático. O todo está presente em cada parte, e cada parte contém informação sobre o todo. Uma célula carrega o DNA do organismo inteiro. Uma comunidade local reproduz tensões da sociedade global.
Recursividade. Causas produzem efeitos que retroagem sobre as causas. A organização produz indivíduos que reproduzem a organização. Não há início absoluto nem fim isolado nessa cadeia.
Não disjunção dos saberes. As fronteiras entre disciplinas são convenções administrativas, não divisões da realidade. Um problema de saúde pública é simultaneamente biológico, econômico, cultural e político. Tratá-lo por uma única lente empobrece a análise.
Como a ciência pode tornar-se menos dogmática
Toda ciência é social, na medida em que foi produzida por seres humanos situados em culturas, interesses e linguagens específicas. A pretensão de objetividade absoluta das observações empíricas apresenta riscos que o próprio método científico, quando honesto consigo mesmo, reconhece.
O Santa Fe Institute, fundado em 1984 no Novo México, é talvez o exemplo mais bem documentado de como o pensamento complexo pode operar dentro da ciência sem reivindicar ser uma ciência em si.⁷ O instituto nasceu da articulação entre físicos, prêmios Nobel e pesquisadores de diversas universidades que queriam um espaço para conduzir pesquisa orientada por problemas, não por paradigmas disciplinares. Entre seus fundadores estavam Murray Gell-Mann, prêmio Nobel de física, e o economista Kenneth Arrow.
O instituto não tem departamentos formais. A pesquisa é colaborativa e abrange as ciências físicas, naturais e sociais, reunindo matemáticos, físicos, biólogos, economistas e cientistas cognitivos trabalhando sobre os mesmos problemas: colapsos financeiros, pandemias, evolução biológica, redes sociais, ou seja, fenômenos que nenhuma disciplina isolada consegue abordar sem empobrecer a análise. O instituto não produziu uma nova disciplina; produziu uma nova forma de fazer ciência dentro das disciplinas existentes.
Isso é o que o pensamento complexo oferece: não substituir a física pela “física complexa”, mas tornar o físico consciente de que seu objeto de estudo interage com sistemas que a equação não captura. Ciência é um tipo de conhecimento, mas não todo o conhecimento, ainda que seja a produção mais rigorosa e técnica de que dispomos.
O dogmatismo científico surge quando uma disciplina esquece que seu método foi construído para determinados tipos de problemas e passa a tratá-lo como o único método legítimo para todos os problemas. O pensamento complexo não propõe abandonar o método; propõe lembrar seus limites.
Uma epistemologia não compete com as ciências. Ela as serve, desde que elas aceitem ser servidas.
O que o pensamento complexo não é
Em um mundo cada vez mais sedento de respostas prontas e de consumo rápido, fácil e imediato — e tendo, para isso, de ser superficial e meramente utilitário —, muitas pessoas buscam simplificar o pensamento complexo, como se os termos simples e complexo fossem antônimos.
O pensamento complexo, segundo Edgar Morin,⁸ não é a simplificação, nem a fragmentação, tampouco a busca por uma verdade completa ou final. Ele se opõe ao reducionismo que separa o conhecimento em caixinhas e à linearidade de causa-efeito, reconhecendo que o real envolve incertezas, contradições e interdependências.
Ele assume a incompletude do conhecimento humano, combatendo a ilusão de que podemos saber tudo. Não nega a necessidade de ordens simples, mas luta contra a simplificação que elimina o que é incerto ou contraditório. Rejeita a separação rigorosa entre áreas do saber, buscando religar conhecimentos. Não é uma receita ou resposta pronta mas um desafio e uma motivação para pensar, não um conjunto de fórmulas definitivas, e não é passível de ser enquadrado em nenhum framework, ainda que muitos tenham surgido no mercado com essa pretensão.
Aceita a desordem, o imprevisto e a ambiguidade em vez de exigir ordem pura e previsibilidade. E entende que o todo é mais (e às vezes menos) do que a soma das partes. Em resumo, luta contra o “pensamento mutilante” que corta a realidade, e busca reunir o que está separado.
Encetamento
Este texto não chega a uma conclusão porque não poderia. Um texto sobre complexidade que terminasse com certezas seria uma contradição em si mesmo.
O que você encontrou aqui foi, na melhor das hipóteses, o começo de uma inquietação. O texto está repleto de afirmações questionáveis e a única garantia que posso oferecer é a da incerteza. Sem dogmatismos, sem proselitismos.
A última coisa que um texto baseado nos conceitos da complexidade poderia propor seria uma fórmula mágica para a solução dos problemas do mundo e do ser humano. Esse é o motivo pelo qual você, leitor, chega aqui sem nenhuma certeza e sem nenhuma sugestão do que o futuro pode lhe oferecer.
O reino encantado das soluções fáceis e a teoria da complexidade estão situados em dimensões cósmicas tão opostas que nem mesmo um tunelamento quântico é capaz de transpor.
Além disso, mesmo que você opte pelas soluções fáceis, vai continuar vivendo em um universo complexo, repleto de incertezas, com conflitos complementares, situações emergentes e onde a parte e o todo são a mesma coisa.
Incoerências surgiram no decorrer do texto que, afinal das contas, foi escrito por um ser humano naturalmente incoerente, contraditório e dialógico.
Todas as contradições com as quais você se deparou durante a leitura são inevitáveis. Não é possível ser dogmático nem determinista dentro desse contexto.
O objetivo inicial, no entanto, acredito ter sido cumprido: provocar os seus neurônios ao exercício contínuo da reflexão.
Se você queria um encerramento, sinto muito, só posso oferecer encetamentos.
Notas
¹ Popper, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 2013.
² Kuhn, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2013.
³ Lakatos, Imre. A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1979.
⁴ Feyerabend, Paul. Contra o método. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
⁵ Morin, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999.
⁶ Mariotti, Humberto. Pensamento complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atlas, 2007.
⁷ Santa Fe Institute. Disponível em: www.santafe.edu. Acesso em: abril de 2026.
⁸ Morin, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.