A maldição do utilitarismo

– “Bastante interessante esse negócio de pensamento complexo que você estuda, mas como você usa isso na prática?”

– “O que exatamente você quer dizer com ´prática´?”

-“No dia-a-dia, para que serve?”

-“Serve para olhar o mundo de uma forma diferente, menos previsível, menos estruturada.”

-“E como você ganha dinheiro com isso”?

A conversa acima é fictícia, mas não irreal. Habitualmente sou questionado por alguns dos meus hábitos, especialmente em relação à minha obsessão por estudar assuntos de diferentes campos de conhecimento. Na visão de muitos, não “servem” para nada se eu não tiver algum benefício tangível desses hábitos.

É uma pergunta que vai se tornando mais frequente, e mais irritante, nas conversas sobre escolhas de vida, projetos de estudo, carreiras e, cada vez mais, sobre arte e cultura: “mas para que serve isso?” A pergunta tem o tom de quem acredita que está sendo razoável, racional, pragmático. Esse é o problema.

O filósofo e educador John Ehrenfeld identificou o que chamou de “doença do pensamento humano contemporâneo” em três sintomas: a superficialidade, a simplificação e o utilitarismo.[1] Os três se alimentam mutuamente. A superficialidade dispensa a profundidade de análise. A simplificação reduz a complexidade a equações de causa e efeito. E o utilitarismo pergunta, de forma invariável e sem vergonha, quanto vale isso em dinheiro.

Concordo com o diagnóstico. O que me parece relevante acrescentar é que essa doença tem uma genealogia filosófica específica, e que a versão atual do utilitarismo já nem se dá ao trabalho de disfarçar seu reducionismo.

Das origens ao desvio

Jeremy Bentham e John Stuart Mill construíram o utilitarismo clássico no século XVIII e XIX com uma ambição que, convenhamos, não era pequena: fundamentar toda a moral numa única pergunta, a da maximização da felicidade para o maior número de pessoas possível. O cálculo hedônico de Bentham media prazeres e dores com uma seriedade quase cômica, mas havia ali uma preocupação genuína com a felicidade humana em sentido amplo, não apenas com a acumulação de riqueza.[2]

Mill foi além e tentou qualificar os prazeres, distinguindo entre satisfações “inferiores” e “superiores”, concluindo que “é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito.”[3] O utilitarismo de Mill comportava a poesia, a contemplação e a filosofia como bens legítimos, ainda que os submetesse ao mesmo tribunal consequencialista.

A virada utilitária econômica começa com Adam Smith e se consolida na geração seguinte, com Malthus e Ricardo, que constroem o arcabouço da economia política clássica, que absorve o raciocínio utilitarista e o reduz à sua dimensão material.[4] A felicidade, que em Bentham e Mill era uma categoria filosófica de alcance amplo, vai se tornando progressivamente sinônimo de prosperidade econômica. O positivismo do século XIX completa a operação: o que não pode ser medido não pode ser conhecido, e o que não pode ser conhecido não pode, portanto, fundamentar decisões racionais.

A métrica, obviamente, era (e é até os dias de hoje) a quantidade de unidades monetárias acumuladas por cada pessoa.

O resultado é que hoje temos um utilitarismo que mal se reconheceria nas obras dos seus fundadores. O que circula nas conversas, nas políticas públicas, nos debates sobre educação e nas justificativas de investimento é uma versão empobrecida: a única consequência que importa é o retorno financeiro. Tudo o mais é “subjetivo”, código subliminar para dizer que não vale nada.

O problema do cálculo

Mas existem críticas sérias ao utilitarismo mesmo na sua versão original, antes de chegarem à sua degeneração econômica.

A primeira é a impossibilidade de medir o que precisa ser medido. A premissa central da teoria é que a felicidade pode ser quantificada e comparada. Mas não existe nenhuma unidade métrica para o prazer.[5]

O que traz satisfação a uma pessoa pode ser irrelevante ou até doloroso para outra. Amor, liberdade, saúde e dinheiro são valores que resistem a qualquer conversão matemática numa escala comum. E quando diferentes valores são incomensuráveis entre si, a aritmética utilitarista simplesmente não fecha.[6]

A segunda crítica é a de que o utilitarismo, levado a sério, exigiria uma demanda moral impraticável. Se maximizar a felicidade geral é a obrigação de cada pessoa, então qualquer um que não doa todo o seu excedente para quem precisa está sendo imoral. Peter Singer argumentou exatamente isso.[7] A maioria das pessoas conclui, razoavelmente, que uma teoria que produz esse resultado tem algum problema de calibração.

A terceira é mais estrutural: o utilitarismo não distingue entre o que é obrigatório e o que é heroico. Na ética kantiana, por exemplo, há deveres que todos devem cumprir e ações supererrogatórias[8] que vão além do dever e são admiráveis precisamente por isso. O utilitarismo dissolve essa distinção: se um ato heroico maximiza a felicidade geral, ele é simplesmente obrigatório. O heroísmo desaparece como categoria.

Mas a crítica mais definitiva talvez seja a de John Rawls, que argumentou que uma teoria moral que permite sacrificar direitos fundamentais de uma minoria em nome do bem-estar da maioria não é uma teoria de justiça, é uma teoria de sacrifício.[9] O utilitarismo pode justificar condenar um inocente se isso evitar uma rebelião maior, ou escravizar uma pequena parcela da população se isso garantir o conforto da maioria. Rawls propôs, em contraposição, que os princípios de justiça devem ser aqueles que pessoas racionais escolheriam sem saber qual posição ocupariam na sociedade, o famoso “véu da ignorância”. O resultado é bem diferente do cálculo utilitarista.

O hedonismo que ficou pelo caminho

Há outro fio que merece ser puxado. O hedonismo antigo, de Epicuro especialmente, tinha uma sofisticação que a versão contemporânea abandonou com alguma pressa.[10]

Epicuro não defendia a busca do prazer no sentido vulgar que o termo assumiu. O ideal epicurista era a ataraxia, a serenidade da alma, alcançada pelo cultivo de relações, pela contemplação filosófica e pela moderação dos apetites. O prazer que Epicuro tinha em mente era o da ausência de dor e perturbação, não o da acumulação de sensações intensas ou bens materiais.

O que chamamos hoje de hedonismo seria irreconhecível para Epicuro. A versão atual é mais parecida com o que ele chamaria de apolausticismo, a entrega desregrada aos prazeres imediatos. E o utilitarismo econômico contemporâneo faz algo parecido: toma uma tradição filosófica que tentava pensar a boa vida, arranca dela o que é mais superficial e descarta o resto.

O que fica de fora

Quando a pergunta “para que serve?” domina todas as decisões, algumas coisas simplesmente deixam de existir ou se tornam marginais.

A arte sem propósito comercial perde sua legitimidade. A filosofia que não produz resultados aplicáveis parece luxo supérfluo. A amizade que não serve à carreira é sentimentalismo. O estudo por curiosidade é ineficiência. O descanso é culpa.

Durante a pandemia, foi publicado um livrinho de Ailton Krenak chamado “A vida não é útil” em que, naquele período em que a vida parecia ter perdido seu sentido produtivo, eficiente, gerador de riquezas, ele dizia que “a vida é transcendência, está para além do dicionário, não tem definição”.[11]

Se Ehrenfeld descreveu os sintomas, Edgar Morin vai além e nomeia as consequências sociais dessa hegemonia do cálculo. Em entrevista ao Canal+ da França[12], ele afirmou que existe ‘uma segunda barbárie, nascida no interior da nossa civilização tão desenvolvida: a barbárie fria e gelada do cálculo e do lucro.’

Para Morin, o problema não é o comércio ou a busca legítima pelo lucro, mas a pretensão de que o cálculo seja o único instrumento válido para compreender a realidade. O resultado é uma classe dirigente fechada numa bolha de indicadores e pesquisas de opinião, incapaz de perceber o que as pessoas de fato vivem e sentem. As antigas solidariedades se dissolvem. O que resta é o anonimato.

E aqui está o paradoxo que o utilitarismo econômico jamais resolve: as pesquisas mais consistentes em psicologia do bem-estar indicam que as experiências mais associadas a uma vida satisfatória são exatamente aquelas que resistem à lógica do retorno: relações profundas, contemplação, propósito que transcende o ganho individual, engajamento com arte e natureza.[13] O caminho mais curto para a felicidade, ao que tudo indica, passa por parar de calculá-la.

O diagnóstico de Ehrenfeld é sobre o que perdemos quando aceitamos que pensar é apenas calcular.

Se você chegou até aqui, agora se responda: para que serviu ler esse artigo?

Imagem: “Rain, steam and speed” –  quadro de 1844 de J.William Turner (London National Gallery)


[1] Ehrenfeld, John R. Sustainability by design: a subversive strategy for transforming our consumer culture. New Haven: Yale University Press, 2008.

[2] Bentham, Jeremy. An introduction to the principles of morals and legislation. Londres: T. Payne, 1789.

[3] Mill, John Stuart. Utilitarianism. Londres: Parker, Son, and Bourn, 1863. “It is better to be Socrates dissatisfied than a fool satisfied.”

[4] Para uma análise dessa transição, ver: Polanyi, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

[5] Até hoje não considero sérias essas avaliações de países mais felizes do mundo.

[6] Sobre a incomensurabilidade de valores, ver: Raz, Joseph. The morality of freedom. Oxford: Clarendon Press, 1986.

[7] Singer, Peter. Famine, affluence, and morality. Philosophy & Public Affairs, v. 1, n. 3, 1972, p. 229-243.

[8] Descobri essa palavra em uma leitura recente e a achei maravilhosa. Para poupar você, leitor, de uma consulta à sua IA de estimação, ela quer dizer: Supererrogação significa o ato de fazer mais do que é exigido pelo dever, pela obrigação ou pela necessidade, segundo o bom a velho Aurélio

[9] Rawls, John. Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Para uma análise das críticas de Rawls ao utilitarismo, ver também: Silveira, Denis Coitinho. As críticas ao utilitarismo por Rawls. Ethic@, Florianópolis, v. 4, n. 1, 2005. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ethic/article/viewFile/14536/13310

[10] Epicuro. Carta a Meneceu. In: Epicuro: obras. São Paulo: Edipro, 2012.

[11] Krenak, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

[12] Entrevista veiculada no Instagram no dia da morte de Morin. Data do original não localizada

[13] Seligman, Martin. Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.